Reconfinement jour 27 (mercredi 25 novembre 2020)
Reconfinement jour 27 (mercredi 25 novembre 2020)
une pandémie parallèle à celle de la COVID-19 :
la violence contre les femmes et les filles
Journée internationale pour l’élimination de la violence à l’égard des femmes
Une rencontre, un écrit ..

Toulouse, 2018
Conceição Evaristo
Brésil
1942-
Lorsque mon amie Roselyne de la librairie “La Renaissance” me parla de la venue de deux romancières brésiliennes, Conceição Evaristo, et Paula Anacaona invitées dans le cadre du Marathon des mots, elle ajouta, “Viens les présenter avec tes collègues de la section de portugais, car je crois qu’on ne sera qu’entre femmes”
Ce fut un vrai bonheur de découvrir la littérature brésilienne à travers**Tatou,**de Paula Anacaona et,L’histoire de Ponciáde Conceição Evaristo.
J’ai été particulièrement sensible à la trajectoire et aux rêves de Ponciá et très intrigué par les mots composés qui jalonnent le roman : le pleurer-rire, les pensées-souvenir, Dame-étoile, dame-vie, entre autres.

Son deuxième roman est Banzo,mémoires de la favela, Éditions Anacaona, 2016, sorti en 2006 au Brésil sous le titre Becos Becos da Memória*(Les ruelles de la mémoire).*
Une sélection de sa poésie a été publiée en français en 2019, dans une traduction de Rose Mary Osorio et de Pierre Grouix, en édition bilingue chez Desa femmes / Antoinette Fouque,
*sous le titre Poèmes de la mémoire et autres mouvements.
O homem de Ponciá Vicêncio cutucou de mansinho o ombro dela e lhe acenou com a canequinha de café. Um cheiro bom invadiu o ar. Ela olhou para ele assustada, fazendo menção de levantar. O homem impediu-a, tocando agora de leve o seu rosto. Ela teve um ligeiro tremor de medo. Ele iria bater-lhe novamente? Arregalou os olhos, curvou o corpo à espera de pancadas. Ele, com um carinho desajeitado, tentou levantar-lhe a cabeça, o que fez que ela se curvasse mais ainda.
Sentiu remorsos por já ter batido na mulher tantas vezes. Não, ela não ficava assim longe, assim lerda por preguiça. Estava doente, muito doente. Algum encosto bravo feito por alguém.
Desviou o olhar e viu a marmita em cima do fogão, enrolada num pedaço de jornal, precisava descer para o trabalho. Pousou a canequinha na beirada da janela, provocando um ligeiro ruído, com esperança de que Ponciá pudesse entender o gesto dele. Nada. Condoído, ele não sabia o que fazer.
Ponciá raramente comia. Quando ele chegava do trabalho, de tardinha, sempre encontrava a mulher sentada no banquinho, no mesmo lugar, perto da janela, olhando lá para fora. Às vezes calma, com o olhar perdido, quase rindo, ora agitada como se tivesse tendo visões amargas.
Estava na hora de ele sair, mas não queria deixá-la naquela posição de medo. Ficou parado esperando um pouco. Abaixou a canequinha de lata, levando-a até a narina da mulher. Ela teve um outro estremecimento e, só quando sorveu profundamente o cheiro do café, levantou a cabeça olhando timidamente para ele. Pegou a caneca e levou aos lábios, reconhecendo, então, a boa intenção de seu homem.
Desde o dia em que o homem de Ponciá havia batido nela tanto e tanto, a ponto de fazer sangrar-lhe a boca, depois, condoído do sofrimento que infligira à mulher, nunca mais ele agrediu-a, e se tornou carinhoso com ela.
Foi tanto pavor, tanto sofrimento, tanta dor que ele leu nos olhos dela, enquanto lhe limpava o sangue, que descobriu não só o desamparo dela, mas, também, o dele. Descobriu como eram sós. Percebeu que cada um tinha os seus mistérios. Sentiu que apesar de estarem vivendo juntos anos e anos, como eram estranhos um para o outro. Descobriu que, apesar de já terem se encontrado tantas vezes no gostoso prazer do corpo, apesar de ela já ter guardado tantas vezes o caldo quente dele e este caldo ter se transformado sete vezes em vida, apesar de tudo, ela e ele eram desesperadamente sozinhos. Desde então, ao perceber a solidão da companheira e a sua própria, o homem viu na mulher o seu semelhante e tomou-se de uma ternura intensa por ela.
Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003
L’homme posa doucement la main sur l’épaule de Ponciá Vicêncio et passa la tasse devant ses yeux. Une bonne odeur de café frais envahit l’air. Ponciá Vicêncio le regarda, hébétée, et fit mine de se lever. L’homme l’en empêcha en lui caressant le visage. Elle frémit. Allait-il à nouveau la battre ? Ses yeux roulèrent et elle replia son corps, dans l’attente des coups. Avec une tendresse maladroite, l’homme essaya de lui relever la tête, mais ne réussit qu’à la faire se recroqueviller davantage.
Meurtri, il ne savait que faire. Il avait des remords de l’avoir si souvent frappée. Non, elle ne restait pas inerte par paresse. Elle était malade, très malade. On avait dû lui lancer un mauvais sort.
Il détourna son regard et vit sa gamelle, enveloppée dans du papier journal sur le poêle. Il devait partir au travail. Il posa sa tasse sur le rebord de la que le bruit fenêtre, dans l’espoir que le bruit sorte Ponciá de sa rêverie. Elle ne bougea pas.
Ponciá mangeait peu. Quand il rentrait du travail en fin d’après midi, il la trouvait au même endroit, assise sur le petit tabouret près de la fenêtre, regardant dehors. Tantôt calme, le regard perdu ou souriant, tantôt agitée, comme prise de visions effroyables.
Il désespérait de la laisser ainsi, recroquevillée par la peur mais il devait se mettre en route. Il attendit immobile. De nouveau, il passa la conserve de fer blanc sous les narines de Ponciá. Elle huma l’odeur du café et frémit. Elle releva la tête et le regarda timidement. L’homme était bienveillant. Elle prit la tasse et la porta à ses lèvres.
Après ce jour où il l’avait cognée au point de la laisser presque morte, il ne l’agressa plus jamais. Regrettant son geste, il devint plus tendre avec elle.
Il lut tant de peur, de souffrance, de douleur dans ses yeux, tandis qu’il nettoyait le sang sur son visage … Il vit le désarroi de Ponciá - mais aussi le sien. Malgré toutes leurs années de vie commune, ils étaient des étrangers l’un pour l’autre. Malgré leurs rencontres charnelles, malgré le chaud liquide qu’elle avait si souvent gardé en elle et transformé sept fois en vie, ils étaient seuls, désespérément seuls. L’homme vit dans l’isolement de sa femme sa propre solitude. Il vit dans Ponciá Vicêncio sa semblable et ressentit une grande tendresse à son égard.
Conceição Evaristo, L’histoire de Ponciá* ,*
traduit par Paola Anacaona et Patrick Louis, Editions Anacaona, 2015
O homem de Ponciá Vicêncio cutucou de mansinho o ombro dela e lhe acenou com a canequinha de café. Um cheiro bom invadiu o ar. Ela olhou para ele assustada, fazendo menção de levantar. O homem impediu-a, tocando agora de leve o seu rosto. Ela teve um ligeiro tremor de medo. Ele iria bater-lhe novamente? Arregalou os olhos, curvou o corpo à espera de pancadas. Ele, com um carinho desajeitado, tentou levantar-lhe a cabeça, o que fez que ela se curvasse mais ainda.
Sentiu remorsos por já ter batido na mulher tantas vezes. Não, ela não ficava assim longe, assim lerda por preguiça. Estava doente, muito doente. Algum encosto bravo feito por alguém.
Desviou o olhar e viu a marmita em cima do fogão, enrolada num pedaço de jornal, precisava descer para o trabalho. Pousou a canequinha na beirada da janela, provocando um ligeiro ruído, com esperança de que Ponciá pudesse entender o gesto dele. Nada. Condoído, ele não sabia o que fazer.
Ponciá raramente comia. Quando ele chegava do trabalho, de tardinha, sempre encontrava a mulher sentada no banquinho, no mesmo lugar, perto da janela, olhando lá para fora. Às vezes calma, com o olhar perdido, quase rindo, ora agitada como se tivesse tendo visões amargas.
Estava na hora de ele sair, mas não queria deixá-la naquela posição de medo. Ficou parado esperando um pouco. Abaixou a canequinha de lata, levando-a até a narina da mulher. Ela teve um outro estremecimento e, só quando sorveu profundamente o cheiro do café, levantou a cabeça olhando timidamente para ele. Pegou a caneca e levou aos lábios, reconhecendo, então, a boa intenção de seu homem.
Desde o dia em que o homem de Ponciá havia batido nela tanto e tanto, a ponto de fazer sangrar-lhe a boca, depois, condoído do sofrimento que infligira à mulher, nunca mais ele agrediu-a, e se tornou carinhoso com ela.
Foi tanto pavor, tanto sofrimento, tanta dor que ele leu nos olhos dela, enquanto lhe limpava o sangue, que descobriu não só o desamparo dela, mas, também, o dele. Descobriu como eram sós. Percebeu que cada um tinha os seus mistérios. Sentiu que apesar de estarem vivendo juntos anos e anos, como eram estranhos um para o outro. Descobriu que, apesar de já terem se encontrado tantas vezes no gostoso prazer do corpo, apesar de ela já ter guardado tantas vezes o caldo quente dele e este caldo ter se transformado sete vezes em vida, apesar de tudo, ela e ele eram desesperadamente sozinhos. Desde então, ao perceber a solidão da companheira e a sua própria, o homem viu na mulher o seu semelhante e tomou-se de uma ternura intensa por ela.
Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003
L’homme posa doucement la main sur l’épaule de Ponciá Vicêncio et passa la tasse devant ses yeux. Une bonne odeur de café frais envahit l’air. Ponciá Vicêncio le regarda, hébétée, et fit mine de se lever. L’homme l’en empêcha en lui caressant le visage. Elle frémit. Allait-il à nouveau la battre ? Ses yeux roulèrent et elle replia son corps, dans l’attente des coups. Avec une tendresse maladroite, l’homme essaya de lui relever la tête, mais ne réussit qu’à la faire se recroqueviller davantage.
Meurtri, il ne savait que faire. Il avait des remords de l’avoir si souvent frappée. Non, elle ne restait pas inerte par paresse. Elle était malade, très malade. On avait dû lui lancer un mauvais sort.
Il détourna son regard et vit sa gamelle, enveloppée dans du papier journal sur le poêle. Il devait partir au travail. Il posa sa tasse sur le rebord de la que le bruit fenêtre, dans l’espoir que le bruit sorte Ponciá de sa rêverie. Elle ne bougea pas.
Ponciá mangeait peu. Quand il rentrait du travail en fin d’après midi, il la trouvait au même endroit, assise sur le petit tabouret près de la fenêtre, regardant dehors. Tantôt calme, le regard perdu ou souriant, tantôt agitée, comme prise de visions effroyables.
Il désespérait de la laisser ainsi, recroquevillée par la peur mais il devait se mettre en route. Il attendit immobile. De nouveau, il passa la conserve de fer blanc sous les narines de Ponciá. Elle huma l’odeur du café et frémit. Elle releva la tête et le regarda timidement. L’homme était bienveillant. Elle prit la tasse et la porta à ses lèvres.
Après ce jour où il l’avait cognée au point de la laisser presque morte, il ne l’agressa plus jamais. Regrettant son geste, il devint plus tendre avec elle.
Il lut tant de peur, de souffrance, de douleur dans ses yeux, tandis qu’il nettoyait le sang sur son visage … Il vit le désarroi de Ponciá - mais aussi le sien. Malgré toutes leurs années de vie commune, ils étaient des étrangers l’un pour l’autre. Malgré leurs rencontres charnelles, malgré le chaud liquide qu’elle avait si souvent gardé en elle et transformé sept fois en vie, ils étaient seuls, désespérément seuls. L’homme vit dans l’isolement de sa femme sa propre solitude. Il vit dans Ponciá Vicêncio sa semblable et ressentit une grande tendresse à son égard.
Conceição Evaristo, L’histoire de Ponciá* ,*
traduit par Paola Anacaona et Patrick Louis, Editions Anacaona, 2015